sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Crente Folião

Uma leitura para o Carnaval


Sou um triste pierrot mal amado, mestre-sala desacompanhado(...) [mas] Se você voltar pra mim, juro para sempre ser arlequim.

                Parece que a Commedia Dell’Arte acertou em definir personagens para o Carnaval atual, parecemos ter apenas duas opções nesta época: ser um triste Pierrot, ou bobo Arlequim.

            Eventualmente, as pessoas que aderiram ao cristianismo depois de certa idade, têm a amargura interior de passar por esta época do ano com uma profunda tristeza, como se ainda fossem foliões que, impedidos pela obrigação, choram tristes, sem a Colombina, perdida para os que ainda estão ‘no mundo’. Obviamente, alguns filhos de crente, os cretinos, sofrem a mesma amargura.

 Tenho pra mim que o gosto por festas e folias tem um toque de perdição, mas também acredito que o cristão verdadeiro será tentado de várias formas de acordo com suas paixões e desejos. Isso quer dizer que, nem sempre aquilo que representa um problema para mim, vai, necessariamente representar para o coleguinha do lado.

O Pierrot sofre potencialmente pela perda de sua amada Colombina, enquanto feliz o Arlequim comemora a conquista. Para alguns a Colombina é o carnaval e tal qual o 'triste Pierrot' choram, ainda que em única lágrima, sua crucificação. Já para outros a Colombina é a fé, para estes é só alegria, ficam como verdadeiros bobos da corte festejando a beleza da salvação e o fato de pertencerem ao Cristo de Deus.

Claro, as comparações com os tradicionais ícones do carnaval brasileiro limitam-se apenas a isto. Mas cabe um questionamento de vida:

Como você tem se posicionado diante do pecado?


Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos.

Gálatas 5:24

Este texto apresenta o maior desafio para os cristãos que ainda vivem neste mundo: em primeiro lugar pertencer a Jesus, depois crucificar a carne e, por fim, crucificar as paixões e desejos.



Pertencer a Jesus


Neste exato momento milhares de pessoas já começaram seus preparativos para desfilarem, ou saírem em seus blocos, elas tem toda preocupação de que tudo saia perfeito, estas pessoas pertencem ao Carnaval. Talvez algumas delas não tenham nem dormido esta noite, de tantos afazeres que ainda têm.

Aos Gálatas, Paulo demostra que existem pessoas que pertencem ao mundo, e para ele o viver ou comportamento destas pessoas pouco importa aqui. Mas ele também conclui que há pessoas que pertencem a Cristo Jesus. Pertencer a Cristo tem suas implicações, só pertence de verdade quem deve satisfação; quem não tem ‘autonomia’ [uma lei inventada por si mesmo]; quem ouve; quem segue; só pertence a Cristo aquele que anda como ele andou.

Algumas pessoas vão dizer que se Jesus estivesse nos nossos dias ele não iria para o retiro, nem viajaria com a família, nem tampouco iria para o culto no templo. Jesus estaria no meio dos blocos pregando a salvação.
Concordo plenamente.
Mas antes de Jesus ir aos pecadores, Ele foi até Deus Pai. Jesus se preparou durante uma vida, após seu batismo fez um mega jejum, orou muito, caminhou muito em direção ao Pai, para só então caminhar entre as multidões. O problema é querermos ir aos homens sem primeiro ter ido a Deus (At 1.8). [Não que possamos encontrá-lo, mas Ele será achado de nós]

Pertencer a Jesus é agir como ele, influenciar, não ser influenciado

Crucificar a carne

            Ao contrário do que alguns pensam, carne não é o mesmo que corpo. A confusão se dá, basicamente por conta da ideia de que a matéria é ruim, e de que o espiritual é bom, formando um octógono interior onde nunca temos paz nessa batalha.
            Na verdade, o corpo, feito por Deus, deve ser bem cuidado [olha quem fala], respeitado em suas limitações e também servir como meio de glorificar a Deus.
            Agora, a carne deve ser crucificada. As sensações que temos que nos lembram do pecado, a vontade de sentir coisas que ainda não experimentamos, tudo isso tem origem na carne.
Sempre que nos vemos lutando contra pensamentos e pecados, estamos crucificando a carne. Quando deixamos que nossa mente pule o carnaval, quando alimentamos lembranças de épocas de Arlequim, provavelmente estamos tirando a carne da cruz.


Crucificar as paixões e desejos

Aqui tem o maior segredo de todos, a Cruz de Cristo. Se não levarmos todas as nossas paixões até a cruz, dificilmente abandonaremos nossa prática de pecado. Se já entendemos que pertencemos a Ele, se sabemos que não devemos alimentar pensamentos pecaminosos, o próximo passo é sujeitar a ele nossas paixões e vontades.
Paixão é tudo aquilo que me envolve, as coisas que nem queria gostar, mas o meio em que vivo me empurra para esta realidade. O desejo ardente de ter, possuir, ou até mesmo conquistar determinada coisa ou pessoa.
Desejo é a fome por algo, é a gana que move alguém até o objeto de sua ambição. O desejo faz nascer o envolvimento da paixão.
Crucificar as paixões e desejos envolve muitas vezes dizer para si mesmo que aquela vida não existe mais. É o exercício constante de renovar sua mente [metanóia] conforme a mente de Cristo. Glória a Deus pois temos a mente de Cristo (I Co 2.16).
Se não me empenhar em reduzir os meus desejos pelo pecado, se eu abandonar a preocupação com meu estado interior serei sempre ‘pierrot mal amado, mestre-sala desacompanhado’.
Nesse carnaval não ceda aos impulsos de parecer com o mundo e viver na carne. Antes, com a convicção de que você pertence a Deus, crucifique-se por inteiro, deixando sua carne e suas paixões aos pés de Cristo.